Dia desses, no caminho para uma das faculdades onde leciono, no bairro de Piedade (zona sul do Grande Recife), preso num engarrafamento monstro, reconheci um prédio que foi palco de uma saudosa história de juventude.

A lembrança também me fez refletir a que ponto nós, sociedade, chegamos. Tudo o que eu e meus amigos passamos, vinte e nove anos atrás, hoje seria impossível de repetir.

Caetano, circa final dos anos 70

Caetano, circa final dos anos 70

Vinte e nove anos atrás, Caetano Veloso fez um show no Ginásio de Esportes Geraldão. Eu e meus amigos do colégio, fãs incondicionais do baiano, não perdemos o espetáculo, é lógico.

Saímos tão entorpecidos e felizes que decidimos não voltar para casa nem tão cedo. A noite estava bonita, uma lua gigantesca iluminava tudo.
Decidimos ir para a praia de Boa Viagem. A pé. Passava da meia-noite. Ônibus naquele horário era complicado.

Para chegar até a praia mais rapido, decidimos cortar caminho atravessando uma favela que ficava por trás do ginásio. A favela era conhecida como Mata-Sete (nem sei se ainda existe). Acho que, juntos, éramos umas doze pessoas – rapazes e moçoilas.

Atravessamos a favela, só com a luz da lua iluminando o caminho. Cachorros latindo, algumas luzes dos casebres acendendo, um ou outro morador abrindo a janela prá ver quem estava andando por ali àquela hora. Medo? Confesso que não senti nenhum.

Chegamos à praia e ficamos na areia conversando, cantando, namorando; alguns tomaram banho. Ficamos até às três da manhã. Mas ainda não dava prá voltar prá casa: os ônibus só começavam a circular perto das cinco horas.

De repente, começou a chover. Já estávamos perto da avenida principal e não havia local para se abrigar, até que encontramos o prédio que citei no início desse post.

Não havia grades nem muros. O prédio, sobre pilotis, era o abrigo ideal! Uma comissão (eu e mais dois colegas) foi conversar com o vigilante para que ele nos deixasse ficar embaixo do prédio até a chuva passar. E não é que ele deixou? Com a condição de que fizéssemos silêncio e saíssemos antes das cinco e meia, hora em que os primeiros moradores saíam para trabalhar.
Nos acomodamos num canto, a maioria tirou um cochilo e outros ficaram batendo papo com o vigilante.
Ás cinco em ponto acordamos os demais, nos despedimos do vigilante e fomos para casa.

Hoje lembro disso com saudades, principalmente da liberdade que tínhamos em poder caminhar a qualquer hora; de não sermos expulsos a tiro pelo vigilante de um prédio; de podermos andar por dentro de uma comunidade considerada violenta sem nada ter acontecido.

Os tempos mudaram e para pior. Quem arrisca andar de madrugada pelas ruas, independente do lugar ser ou não perigoso? Qual prédio hoje em dia abdica da segurança de muros e grades eletrificados e guardas armados? Qual vigilante aceita doze estranhos se acomodando embaixo do seu prédio fugindo da chuva?

Hoje, o prédio que nos abrigou da chuva vinte e nove anos atrás parece mais uma fortaleza, com muros e cerca elétrica.

Foi aí que lembrei de uma música de Sivuca e Paulinho Tapajós (cantada por Sivuca e Fagner), “No Tempo dos Quintais”, que celebra esses tempos mais inocentes de outrora.

Sivuca-No tempo dos quintais

Esse foi mais um post nostálgico desse blogueiro que está ficando velho…

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