A lembrança também me fez refletir a que ponto nós, sociedade, chegamos. Tudo o que eu e meus amigos passamos, vinte e nove anos atrás, hoje seria impossível de repetir.
Vinte e nove anos atrás, Caetano Veloso fez um show no Ginásio de Esportes Geraldão. Eu e meus amigos do colégio, fãs incondicionais do baiano, não perdemos o espetáculo, é lógico.
Saímos tão entorpecidos e felizes que decidimos não voltar para casa nem tão cedo. A noite estava bonita, uma lua gigantesca iluminava tudo.
Decidimos ir para a praia de Boa Viagem. A pé. Passava da meia-noite. Ônibus naquele horário era complicado.
Para chegar até a praia mais rapido, decidimos cortar caminho atravessando uma favela que ficava por trás do ginásio. A favela era conhecida como Mata-Sete (nem sei se ainda existe). Acho que, juntos, éramos umas doze pessoas – rapazes e moçoilas.
Atravessamos a favela, só com a luz da lua iluminando o caminho. Cachorros latindo, algumas luzes dos casebres acendendo, um ou outro morador abrindo a janela prá ver quem estava andando por ali àquela hora. Medo? Confesso que não senti nenhum.
Chegamos à praia e ficamos na areia conversando, cantando, namorando; alguns tomaram banho. Ficamos até às três da manhã. Mas ainda não dava prá voltar prá casa: os ônibus só começavam a circular perto das cinco horas.
De repente, começou a chover. Já estávamos perto da avenida principal e não havia local para se abrigar, até que encontramos o prédio que citei no início desse post.
Não havia grades nem muros. O prédio, sobre pilotis, era o abrigo ideal! Uma comissão (eu e mais dois colegas) foi conversar com o vigilante para que ele nos deixasse ficar embaixo do prédio até a chuva passar. E não é que ele deixou? Com a condição de que fizéssemos silêncio e saíssemos antes das cinco e meia, hora em que os primeiros moradores saíam para trabalhar.
Nos acomodamos num canto, a maioria tirou um cochilo e outros ficaram batendo papo com o vigilante.
Ás cinco em ponto acordamos os demais, nos despedimos do vigilante e fomos para casa.
Hoje lembro disso com saudades, principalmente da liberdade que tínhamos em poder caminhar a qualquer hora; de não sermos expulsos a tiro pelo vigilante de um prédio; de podermos andar por dentro de uma comunidade considerada violenta sem nada ter acontecido.
Os tempos mudaram e para pior. Quem arrisca andar de madrugada pelas ruas, independente do lugar ser ou não perigoso? Qual prédio hoje em dia abdica da segurança de muros e grades eletrificados e guardas armados? Qual vigilante aceita doze estranhos se acomodando embaixo do seu prédio fugindo da chuva?
Hoje, o prédio que nos abrigou da chuva vinte e nove anos atrás parece mais uma fortaleza, com muros e cerca elétrica.
Foi aí que lembrei de uma música de Sivuca e Paulinho Tapajós (cantada por Sivuca e Fagner), “No Tempo dos Quintais”, que celebra esses tempos mais inocentes de outrora.
Esse foi mais um post nostálgico desse blogueiro que está ficando velho…






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