OU: o que seria de um super-herói sem seu super-vilão (e vice-e-versa)?

O último grande filme que assisti em 2010 foi o maravilhoso Megamente, dirigido por Tom McGrath para a Dreamworks.

Como fã dos hoje decaídos quadrinhos de super-heróis, eu tinha que assistir essa animação, mas confesso que fui com um pé atrás – ainda estava bem fresquinho na minha cabeça Os Incríveis (eu tinha revisto poucos dias antes), um dos melhores filmes a abordar o gênero (cortesia do brilhante Brad Bird).

Mas Megamente me surpreendeu. Principalmente por abordar um tema já batido nas hq’s, mas pouco explorado na atual safra de filmes com gente de colante: a estranha relação simbiótica entre herói e vilão.

Resumindo bem resumidamente: Megamente é o supervilão que quer conquistar Metrocity, defendida pelo super-herói Metro Man. Durante anos, eles se enfrentam, numa dança repetitiva e previsível. Até que num belo dia, o plano maquiavélico do vilão dá certo e o herói é derrotado! Megamente domina a cidade, mas logo logo fica entediado. Sem um herói para enfrentá-lo, a vida de imperador não tem graça. Ou seja, sem um herói, ele não pode viver. Então, ele decide criar um super-herói para voltar aos bons e velhos tempos. :D

Esse tema é abordado com frequência nas histórias do melhor super-herói de todos os tempos: Batman.

Vez por outra um roteirista aproveita e coloca na boca de algum personagem frases como “Essas aberrações só existem por causa do Batman”, quando se referem a vilões como Crocodilo, Senhor Frio, Coringa, etc.

Falando no Coringa, ele e o Morcego tem a mais estranha relação entre todos os supertipos.

A Piada Mortal, de Alan Moore, começa com o cruzado embuçado fazendo uma visitinha ao palhaço do crime para que eles coloquem suas diferenças em dia.

No final da história, com o Coringa já derrotado, Batman tenta convencer o vilão a tentar uma vida nova, antes que os dois acabem se matando. Não dá certo e o final todo mundo sabe: os dois gargalhando debaixo de um toró!

Batman e Coringa num momento de DR

Batman e Coringa num momento de DR

Em Asilo Arkham, de Grant Morrison, o Coringa domina o tenebroso depósito de aberrações e exige a presença do Morcego, só para provar que ele é tão maluco quanto aqueles que colocou lá dentro. É nesta hq que tem a polêmica (prá época) cena onde o palhaço passa a mão na bunda do morcego! Santa Saliência, Batman!!!!

"Relaxa, bundinha de ferro!", disse o Coringa e sua mão boba.

Em Batman, O Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller, o Coringa estava lá na dele, totalmente calminho e normal, até o morcego voltar à ativa. Resultado: o palhaço desperta da sanidade e volta aos velhos tempos de assassino.

Depois de anos em estado catatônico, o Coringa acorda quando sabe que o Morcego voltou à ativa.

Depois de anos em estado catatônico, o Coringa acorda quando sabe que o Morcego voltou à ativa.

No filmaço Batman – O Cavaleiro das Trevas, dirigido por Chris Nolan, a cena final entre os dois vem reforçar essa simbiose. Diferente da versão de Tim Burton, o morcego não deixa o Coringa se estatelar no chão e o salva. O papo que vem a seguir é praticamente uma homenagem à Piada Mortal.


Essa relação simbiótica também pode ser vista no filme Corpo Fechado, de M. Night Shyamalan, obra-prima do gênero – mas que não está no gibi.

o herói, o vilão e toda a filosofia por trás do que une e separa os dois: Corpo Fechado

o herói, o vilão e toda a filosofia por trás do que une e separa os dois: Corpo Fechado

O personagem de Samuel L. Jackson, Elijah Pryce, que tem uma doença rara que torna seus ossos frágeis e é dono de uma comic shop, aparece na vida de David Dunne para explicar porque ele é um sujeito invulnerável; a partir daí, o personagem desfia toda a filosofia/ideologia do gênero super-herói, só faltando falar “com grandes poderes, vem grandes responsabilidades e um vilão motherfucker prá te encher o saco eternamente”.

"Você é um super-herói, seu estúpido!", diz o vilão

Mas, por fim, essa relação é o que nos estimula a acompanhar nosso herói – afinal, que graça teria se o Batman mandasse seus inimigos pro inferno todos os meses? Ia faltar inspiração para criar novos vilões com o mesmo charme, carisma e poder de sedução – pois, repetindo o velho clichê de atores/atrizes, ser mal é mais gostoso!

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