O ensino superior privado do Brasil deve muito a FHC e Paulo Renato. Foi durante os oito anos de gestão tucana que o número de faculdades privadas aumentou. Se por um lado isso ampliou o acesso para aqueles que não conseguiam entrar numa universidade pública, também gerou algumas distorções no quesito “qualidade” do ensino, como era de se esperar.
A historinha que vou contar agora não tem a ver com “qualidade do ensino” até porque ele nem começou na prática. Tem a ver com a falta de respeito que algumas instituições têm tratado a questão da educação nesse país. Já que elas tratam seus alunos como clientes, em alguns casos mereciam ser denunciadas ao PROCON.

A PERSONAGEM PRINCIPAL

Minha esposa Tita optou por ficar todos esses anos cuidando dos filhos. Para isso, parou os estudos no ensino médio. Como as crianças já não são mais crianças, ela decidiu voltar a estudar. No entanto, para recomeçar, ela pretendia fazer um curso de curta duração de decoração de interiores, área pela qual é apaixonada – ela tem feeling prá coisa, tem bom gosto, é sempre requisitada pela família quando o assunto é decoração.

Depois de pesquisar bastante, ela optou pelo curso oferecido pela Faculdades Unidas de Pernambuco – FAUPE. Situada no bairro de Santo Amaro, a instituição apresentava boa estrutura e a opção de um curso técnico mais longo (um ano e meio). Ok. Decisão tomada, contatos iniciais, inscrição, matrícula e tudo certo para o início das aulas em fevereiro.

A AQUISIÇÃO

Ainda em janeiro, ela ligou para se informar sobre data de início das aulas, sala e whatever. Foi surpreendida com a informação que teria de fazer uma prova classificatória, porque o número de inscritos superou o número de vagas e etc e tal. Ok. Ela foi lá e fez sua prova. Tudo certo.

Quando ligou novamente para saber a data do início das aulas, nova surpresa: o curso não seria ministrado nas dependências das Faculdades Unidas em Santo Amaro e sim no bloco B da Faculdade Maurício de Nassau, a nova dona da FAUPE. Prá Tita, tudo bem – ela não gostava muito da localização anterior. Estudar no bairro do Derby, mais central e movimentado e numa instituição que tem uma super-mega-hiper-estrutura parecia um prêmio extra. Ok.

Ligando para o número de telefone da Nassau que a FAUPE disponibilizou, começou a bronca: ninguém sabia informar patavina – alguns funcionários afirmaram que nem sabiam que a FAUPE tinha sido adquirida pela Nassau. Muitos telefonemas depois, o início das aulas foi confirmado.

A BRONCA

No dia 14 de fevereiro, lá foi Tita toda feliz para a Maurício de Nassau – felicidade compartilhada por toda a família, que incentivou muito seu retorno aos estudos. O primeiro dia de aula dela não foi assim uma Brastemp, até porque não houve aula. Um dos diretores reuniu os alunos e informou que eles não iriam estudar lá por falta de espaço e que seriam transferidos para outro prédio da instituição, situado no bairro de Santo Amaro – próximo às dependências da FAUPE.

O citado prédio não agradou à turma, principalmente pela localização precária em termos de transporte e segurança; além disso, não havia estrutura adequada para um curso que tem disciplinas práticas de desenho e que precisa de carteiras e salas adequadas, além de uma biblioteca com obras específicas. Assim, reinvindicaram que o curso fosse ministrado nas dependências da FAUPE, que possui a estrutura adequada. Negado. “Não existe mais FAUPE, só Maurício de Nassau”, informou um dos diretores.

Depois de uma semana reclamando, os diretores transferiram a turma para o BJ Colégio e Curso. Isso mesmo: 70 alunos do curso de Design de Interiores foram jogados gambiarristicamente para um colégio. Ora, se o prédio anterior não tinha estrutura adequada, imagina o colégio. Sem laboratórios, sem salas e carteiras adequadas, sem espaço para estacionamento, sem secretaria (os alunos são atendidos no corredor!!!). Reclama dali, encosta diretor na parede, protesto e nada.

FACULDADES SEM NOÇÃO

Aí entra outra faceta do ensino superior privado: a concorrência – brutal, selvagem, descarada!

Um grupo de alunos, inconformado com o descaso, foi parar na Faculdade Boa Viagem e contou a história. Pois bem: a FBV ofereceu um desconto de 50% na mensalidade do curso de graduação em Design de Interiores, aproximando a mesma da que seria paga na FAUPE (ou Maurício, sei lá…). Para isso, bastavam que 50 alunos topassem estudar lá. O grupo de alunos fez um abaixo-assinado, que já está chegando perto do número necessário para a transferência.

(Hããã, não conheço os detalhes dessa negociação, mas… FBV, a redução da mensalidade para o grupo da FAUPE não é uma sacanagem com seus próprios alunos, que continuam pagando o valor antigo?)

Quando souberam disso, os diretores da FAUPE/Maurício foram conversar com a turma e prometeram mundos e fundos: reformas, instalação de secretaria, salas e carteiras adequadas, bibliotecas, um lugar garantido no céu…
Resumo da ópera: teve o carnaval e ficou tudo em suspenso. Nesta semana que se inicia, decisões vão ser tomadas.

E AGORA, ALUNOS-CLIENTES?

A pergunta que não quer calar é: se não tinham estrutura para abrir uma turma para esse curso, porque abriram? Foi só para ouvir o tilintar das moedas caindo na caixa registradora? Cadê o cumprimento do discurso de qualidade, maior instituição do norte/nordeste, nossos cursos são os melhores e blá blá blá?

Em um mês de aula, a turma passou pelo menos duas semanas brigando com a direção; quanto às aulas propriamente ditas, Tita não tem reclamado e está gostando dos professores, que em alguns casos tem que tirar leite de pedra para passar o conteúdo – tipo, ministrar uma aula de desenho numa banca escolar inadequada.

Problemas que são típicos do ensino público replicados numa instituição privada que tem dinheiro, poder, estrutura, conhecimento e gente capacitada. Engraçado, né?

Não.

É uma história que de engraçada não tem nada e é, sim, muito trágica, ao mostrar um lado da educação superior privada que dificilmente aparece na grande mídia.

Eu disse à Tita: no meu tempo de estudante, 10% disso já era motivo prá fazer uma grande balbúrdia na escola/universidade, pintar faixas, ir pros jornais e o escambau. E em alguns casos, nem precisamos fazer isso, pois só a ameaça já fez os responsáveis se reunirem e discutirem alternativas. Acho que a turma está é muito calma diante de tanta falta de respeito.

Assim como nas relações comerciais, onde o cliente tem sempre razão, em educação tudo deveria ser feito pensando prioritariamente no aluno. Que é UM ALUNO, não UM CLIENTE – mas que como este último merece tanto ou mais respeito por parte daqueles que se comprometem a educá-los.

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